Simetria, refinamento e austeridade

arq_16689

Márcio Kogan e Isay Weinfeld: Hotel Fasano

Idealizado para ser um dos mais exclusivos hotéis de São Paulo, o Fasano foi projetado por Márcio Kogan e Isay Weinfeld, parceiros de longa data, mas com escritórios independentes. Após discutir idéias e conceitos juntos, eles dividiram tarefas ao longo dos sete anos de projeto: Kogan se encarregou do desenvolvimento daarquitetura e da interface com os projetos complementares e Weinfeld tratou dos interiores.
Localizado em uma rua de apenas um quarteirão nos Jardins, zona oeste de São Paulo, o hotel foi criado a partir da colagem de referências diversas, que misturam, entre outros, protomodernismo, art déco, minimalismo (àPeter Zumthor), pormenores de antigos edifícios anglo-saxões e influências da elegância e espacialidade deAurelio Martinez Flores, tudo em clima nostálgico.
O empreendimento ocupa um pequeno terreno em relação ao grande programa que abriga: dois bares, dois restaurantes, centro de convenções, áreas administrativas, sala de ginástica, massagem, piscina e 64 apartamentos.
O resultado é uma torre escalonada, com desenho reforçado por um jogo de volumes, cada qual com revestimento diferente. Esses volumes sobrepostos remetem a antigos edifícios art déco de Nova York, como oEmpire State (projetado por Shreve, Lamb and Harmon, em 1931), ou mesmo alguns prédios paulistanos, como o do Banespa (Plínio Botelho do Amaral, 1937).
A aparência do hotel revela raiz protomodernista, movimento do início do século passado que misturava elementos clássicos (como plantas simétricas, volumes compactos, forte relação do prédio com a rua, volumes fenestrados por pequenos vãos) e modernos (curvas, marquises e pestanas, ausência de ornamentos). Reforçando essa impressão, a torre é coroada por um relógio.
A graça da volumetria não está nos balanços estruturais ou na técnica empregada, mas nas diferentes texturasque revestem a edificação. Foram usados madeira, na base; pedra, nas duas extremidades da torre e no volume do restaurante; tijolo, na caixa central, e massa, nas laterais posteriores e no fundo.
A torre é fenestrada simetricamente por caixilhos de alumínio de pequenas dimensões, reticulados com desenho e coloração que lembram janelas de madeira. A impressão de paisagem londrina é reforçada pela coloração do tijolo, importado da Inglaterra. Mas a austeridade simétrica lembra também obras anteriores dos autores, como o edifício paulistano Metrópolis (1991).
Apesar de estender-se por todo o lote, vista da rua a torre ganha certa independência em relação aos vizinhos, devido ao isolamento da base de madeira, obtido com os recuos – em ambas as laterais – ocupados por duas rampas de acesso à garagem subterrânea. A base abriga três pisos, com a administração no primeiro andar e um centro de convenções no segundo.
No entanto, a face frontal possui uma grande abertura central, destinada ao acesso, que lembra a Casa de Cultura, em Poços de Caldas, MG (projeto de Flores, de 1990). A diferença são as extremidades curvas, protomodernistas, que abrigam sanitários.
O interior do hotel é marcado pela simetria, pelo refinamento e pela austeridade de materiais nobres, como mármore travertino e madeira. O detalhamento exaustivo incluiu desde o desenho das pequenas placas de sinalização “até os botões da campainha”, relata Kogan.
Em vez da recepção, o primeiro ambiente do hotel é um bar com pé-direito duplo – trata-se de mudança de curso idealizada pelo proprietário. “Nenhum consultor de hotelaria aprovaria, mas ficou excepcional”, diz Kogan. O resultado curioso dessa estratégia é que os elevadores passaram a ter duas portas, uma vez que a recepção voltou-se para o fundo.
A ligação entre o Lobby Bar e a recepção se dá por duas circulações laterais simétricas, de pé-direito baixo, criando um percurso guiado pela luz zenital que ilumina a recepção (também à la Flores). Para essas passagens, marcadas por lareiras (que lembram o desenho do acesso), abrem-se as duas principais atrações do hotel: de um lado, o Fasano, um dos mais requintados restaurantes da cidade; do outro, o Baretto, pequeno e refinado jazz bar.
As duas casas já existiam, em outros endereços. O antigo restaurante estava implantado no mesmo quarteirão do hotel. Por isso, cogitou-se abrir uma pequena passagem, em lotes de terceiros, para interligar os dois. Como isso não foi possível, alugou-se um terreno ao lado do hotel, onde o restaurante foi instalado em volume anexo.
Já o Baretto, que ficava no Itaim, em espaço projetado por Weinfeld, foi fechado e reaberto no corpo da edificação. Ele ocupa estreita parcela do lote, que se abre para outra rua. Nessa área, em pavimento acima do bar, foi possível criar um acesso de serviço independente.
Outro fato interessante é a operação das cozinhas – localizadas no subsolo – em pisos diferentes do salão, experiência assimilada pela família Fasano desde os tempos do restaurante na rua D. José Gaspar (projeto deTelésforo Cristofani, de 1965), passando pelo Gero Café do Shopping Iguatemi e o Gero Rio (leia mais), os dois últimos de Flores.
O primeiro pavimento da torre é ocupado pelo restaurante do hotel, o Nonno Ruggero, onde são servidos café da manhã e brunch. Ele utiliza como terraço a cobertura da caixa de madeira.
Os 64 apartamentos estão distribuídos em 19 andares. Os 14 primeiros pisos contêm quatro unidades menores. As acomodações de dimensão intermediária, por sua vez, dividem o andar em dois e ocupam os três pavimentos seguintes. E os dois próximos pisos possuem uma suíte cada.
Os três últimos andares do hotel são destinados a piscina, sala de massagens e sala de ginástica. No rol das referências, a piscina lembra a da Therme de Vals, de Peter Zumthor, na Suíça.

Veja mais aqui

Fonte: Arco Web

  • /